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sábado, maio 8, 2021
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Socorro, senhas!

Instagram, Facebook, Whats­App, bancos, livrarias virtuais, moda on-line, eletrodomésticos… O uso da internet se tornou exponencial. Dá pra comprar, vender, realizar transações financeiras, se exibir, conhecer um grande amor etc. etc. Todos os sites e aplicativos do universo, porém, exigem senha. Quanto mais se usa, mais senhas. Meus neurônios lampejam. Não tenho cérebro para armazenar tantos dados. No início, anos-luz atrás, era só uma senha no banco… as primeiras na internet. Pediam para não botar data de nascimento, ou outras facilmente quebráveis. Eu tinha uma imbatível: o número de um telefone fixo antigo, que nunca me saiu da cabeça. Mas, um dia, o site exigiu letras maiúsculas e minúsculas. Criei nova senha, que me apressei em decorar. As senhas seguintes se tornaram mais complexas. Avaliavam meu grau de dificuldade: mínimo! Entrou um aviso: eu deveria pedir uma nova a um gerador de senhas. Obediente, dei um enter. Veio: A2b3c5d7E11f3g17h19l23. Tentei pronunciar, senti um sufoco, quase desmaiei de falta de ar. Como decorar uma senha que nem consigo falar? Tentei minhas próprias. Juntei novas letras e números, ai, ai, ai. Mesmo assim, houve quem me desvendasse. Recebi um e-mail com a senha de meu computador! O autor avisava que pretendia destruir minha vida, divulgando os meus nudes e cenas de sexo on-line. Pedia 50 000 dólares. Nem pisquei. Nunca mandei nudes, muito menos pratiquei sexo virtual. Mas mudei a senha.

Criei mais e mais outras, com mil artifícios! Nas avaliações, ganhei alto grau de dificuldade. Mas aí fui entrar num site que não via há muito tempo. Senha recusada. E outro, e outro. Não consegui fazer compras em certas lojas nunca mais. Meu PayPal inválido. Eu esquecera as senhas, não lembrava onde estavam salvas! Uma tragédia. Em muitos casos, foi preciso uma atitude bem pouco virtual para resolver. Telefonemas. Súplicas! Ainda tem quem não me aceite! De fato, muitas das mensagens de segurança não entram no meu celular. Alguém me clonou, será? Quase enlouqueci. Por via das dúvidas, mudei o cartão de crédito.

“Meus neurônios lampejam. Não tenho cérebro para armazenar tantos dados. Uma tragédia”

Terrores são também certas transações bancárias ou em sites complexos. Há que ter uma senha, depois outra digital. Quando vou executar o procedimento… avisam que estão mandando um iToken para meu celular. Pego às pressas, boto no site. Frequentemente o iToken já expirou. Tento obter um novo antes de arranhar as paredes. Mas é difícil.

Finalmente, descobri a solução: arquivar as senhas em segurança total! Óbvio, mas nem tanto. Onde? Pensei em botar no celular. Mas, e se roubam? No computador? E se quebram o acesso? Ui, ui, ui. Tudo tem solução! Há uma maneira única, imbatível! Uma agenda de papel, como se usava há cinquenta anos. Anoto todas as senhas. Está bem guardadinha, não é suspeita — tem uma capa com uma inocente reprodução de Magritte. Só eu tenho acesso.

Não preciso lembrar de senha pra entrar. É só abrir. Não é digital, não é on-­line, nem é moderna. Mas funciona.

Publicado em VEJA de 21 de abril de 2021, edição nº 2734

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