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segunda-feira, agosto 8, 2022
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Óculos ‘falantes’: como um dispositivo de inteligência artificial ajuda estudantes cegos no Brasil

“Nem sempre as pessoas me entendem. Poucos conseguem realmente saber o que é a inclusão. Para mim, ter uma tecnologia que permite ler diferentes livros por transformar as palavras em áudio me trouxe mais confiança, segurança e independência”.

O depoimento é da estudante Kayenne Alves, de 16 anos, moradora de Cuiabá, Mato Grosso. Com deficiência visual desde que nasceu, a aluna do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) recebeu da Secretaria da Educação do Estado algo que, segundo ela, a fez avançar nos estudos desde abril: o dispositivo com inteligência artificial chamado Orcam MyEye.

Ele pesa apenas 22 gramas, é do tamanho de um dedo e se conecta a todo tipo de armação de óculos. A tecnologia foi criada em Israel em 2015 e é capaz de transformar textos de livros ou de qualquer superfície, como um cardápio, em voz alta e sem necessitar de conexão à internet.

Basta apontar o dedo onde quer que se faça a leitura. O sensor óptico captura a imagem e através da inteligência artificial converte as informações instantaneamente em áudio por meio de um pequeno alto-falante localizado acima do ouvido (veja mais detalhes abaixo).

No Brasil, o dispositivo chegou pela empresa Mais Autonomia, que é do ramo de tecnologia assistiva, em 2018. Segundo o diretor Doron Sadka, ele o conheceu quando viajou para Israel e decidiu importá-lo com o sistema adaptado em três idiomas: português, inglês e espanhol.

Além da Kayenne, outros estudantes cegos ou com baixa visão receberam esse tipo de tecnologia em escolas estaduais, municipais e universidades privadas ou públicas entre o ano passado e este ano, como nos estados de Minas Gerais, Goiás, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Amazonas.

Os alunos podem ficar com os óculos até encerrarem o curso da unidade de ensino, como o ensino fundamental e ensino médio — no caso das escolas municipais e estaduais — e o superior.

Em São Paulo, além das instituições, foram colocados 54 óculos no sistema de bibliotecas, um no Centro Cultural São Paulo e dois na Biblioteca Mario de Andrade (veja endereços abaixo).

Mas por ser importada e de alto custo — cerca de R$ 14 mil cada —, a tecnologia ainda não é acessível para todos com deficiência visual no Brasil.

A empresa estima que estudantes e trabalhadores tiveram contato com o dispositivo em 800 cidades. Porém, o número não chega nem perto dos 35,7 milhões de brasileiros com deficiência visual, segundo o último censo feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010.

E como essa tecnologia israelense pode ajudar os estudantes brasileiros cegos ou com baixa visão? O que muda na rotina? O g1 conversou com alunos que tiveram contato com os “óculos falantes”.

Leitura que se tornou paixão

Tiago Ferreira Porto tem baixa visão grave desde que nasceu. Morador de São Paulo, o adolescente de 16 anos conta que ler nunca foi algo prazeroso na infância, já que colocava o livro próximo ao rosto para poder enxergar.

Mas há quatro anos a atividade se tornou uma paixão. Ao ir até a biblioteca municipal Affonso Taunay, no bairro Mooca, ele foi informado que havia chegado uma tecnologia que o ajudaria na leitura: os óculos Orcam MyEye.

O estudante conta que, após ter contato com a tecnologia, chegou em casa e contou para os pais sobre a autonomia que teve com o dispositivo.

“Ah, ele chegou todo feliz falando que tinha conseguido ler sozinho. Eu vi a alegria dele”, enfatiza o pai, Gibrailton Santos Porto.

Coordenadora da biblioteca, Meire Rose Stankevicius Bassi afirma que é gratificante quando usuários com baixa visão ou cegos usam os óculos e conseguem ter independência na leitura.

“Eles podem ler qualquer tipo de livro e acessar todo o acervo. Temos o caso de um idoso que ficou cego e ficou emocionado ao conseguir ler. E isso é muito legal. A gente quer que a leitura esteja também no mundo deles”, relembra.

Desde a pandemia, Tiago não consegue ir com tanta frequência para a biblioteca por ter começado o ensino médio em uma escola mais distante.

“Foi uma experiência cortada porque não consegui vir mais por estudar mais longe. Eu espero que tenha em todas as escolas porque têm muitas pessoas com baixa visão”.

Amor pela comunicação
Para a estudante Kayenne Alves, de 16 anos, os verbos desistir e desanimar não devem fazer parte da rotina. Moradora de Cuiabá, a aluna com cegueira realizou o sonho de ler mais livros depois que teve acesso ao Orcam MyEye.

O estado de Mato Grosso entregou os óculos para 62 estudantes e 47 professores da rede estadual este ano. Kayenne, como sempre foi aluna da rede estadual antes de entrar para o IFMT, foi incluída.

“Eu consegui terminar um livro em inglês que sempre quis ler. Nem sempre todo conteúdo chega a tempo em braile e o Orcam me ajudou nisso. Tecnologia para nós ainda falta bastante nas escolas. Tem melhorado, mas precisa avançar”, diz.

 

A mãe de Kayenne diz que a filha sempre gostou de estudar, mas a tecnologia impulsiona ainda mais a busca por conhecimento.

“Ela é muito determinada em tudo que faz. Resolveu fazer natação, se empenhou e até ganhou medalha por ter participado de competição. Agora que tem essa tecnologia a seu favor, ela quer desbravar ainda mais”.

“Espero que surjam mais tecnologias para que a sociedade veja que eles não precisam ficar presos dentro de casa, que são pessoas normais e não contaminam ninguém”, ressalta Cândida.
Busca pela independência

Veronice da Silva Cavalcanti é mãe de Luiz Felipe, de 16 anos. O adolescente tem deficiência visual desde que nasceu e sempre precisou da ajuda dela ou de amigos para que pudesse ler livros que ainda não tinham em braile.

Mas em março deste ano o garoto foi surpreendido na escola onde estuda em São Roque, interior de São Paulo. A unidade entregou para ele o dispositivo Orcam MyEye. E o acesso à tecnologia emocionou a família.

Quem entregou o dispositivo para Luiz Felipe foi o Serviço Social da Indústria (Sesi), instituição onde ele cursa o ensino médio. No total, foram 30 óculos para alunos em 22 escolas do estado de São Paulo, entre elas as de São Roque, Registro, Valinhos e São Paulo.

“O rendimento escolar de quem recebeu os óculos aumentou. Provavelmente por ele [dispositivo] estar ligado à autoestima e qualidade de vida com essa interação maior do estudante”, ressalta Roberto Xavier, gerente executivo de educação.

De Israel para o Brasil

O último relatório publicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em 16 de maio deste ano, aponta a falta de acesso às tecnologias assistivas.

Mais de 2,5 bilhões de pessoas precisam de um ou mais produtos assistivos no mundo, mas quase um bilhão não tem acesso, principalmente em países de baixa e média renda, diz o relatório.
O dispositivo Orcam MyEye foi lançado em 2015 por Amnon Shashua e Ziv Aviram, em Israel, para atender esse público. Os dois são donos da empresa de tecnologia Orcam, que foi fundada em 2010 e tem como foco desenvolver a inteligência artificial.

O diretor da empresa que importa a tecnologia para o Brasil diz que a entrada do dispositivo nas instituições de ensino começou depois que ele e a empresa analisaram o último censo do IBGE sobre pessoas com deficiência.

“Em Israel, o governo paga 50% da tecnologia porque tem o subsídio. França e Alemanha também. Aqui no Brasil não tem política de subsídio para tecnologia assistiva ainda. Talvez um dia possa ter. Então, comecei a entrar em contato com governadores, prefeitos e reitores de universidades para explicar como era o dispositivo”, afirma Doron Sadka.

Por ser a única representante no país, a lei permite que o dispositivo seja comprado por inexigibilidade, sem necessidade de licitação.

Outras tecnologias

Diversos aplicativos no smartphone para reconhecer imagens, rótulos de produtos, cédulas de dinheiro e acessar materiais impresso ajudam pessoas com deficiência visual.

Entre os mais conhecidos estão o TapTapSee, usado para ler rótulos de produtos, e o Seeing AI, uma iniciativa de inteligência artificial da Microsoft para organizar documentos em pastas, além de reconhecer os textos das fotos que recebe por e-mail ou redes sociais.

O Facebook, da Meta, usa algoritmos para ter a descrição de imagem automática para cegos.

Para Maria Lucia Miyake Okumura, professora da PUC Paraná e pesquisadora na área de tecnologia assistiva, as tecnologias estão ajudando as pessoas com deficiência a entrarem para o mercado de trabalho.

“Vejo um avanço na área da robótica, por exemplo, para ajudar com mobilidades. O Orcam ajuda nos estudos e, consequentemente, no trabalho. Eu sempre falo que, podem ter recursos avançados, mas precisa ter uma forma de chegar para as pessoas. Não só os preços, mas que personalize o seu uso, naquela função”.

Quanto ao alto custo, Maria Lucia ressalta que, enquanto as tecnologias assistivas forem apenas para os públicos específicos, elas continuarão caras.

“Se tivermos um produto com inteligência artificial que está em todos os aparelhos, em aplicativos usados por todos, essa tecnologia fica muito mais acessível e barata, pois todos usam. Mas se é uso exclusivo, o custo será mais alto devido à ‘baixa demanda’. Por isso ainda continuamos com tecnologias tão caras”, diz.

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