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quinta-feira, setembro 16, 2021
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Afegãs se despedem de trabalhos e estudos após triunfo do Talibã

Com a tomada do poder pelo Talibã no Afeganistão, muitos temem um enorme retrocesso nos direitos conquistados pelas mulheres nos últimos 20 anos. Da última vez que o grupo fundamentalista governou o país, entre 1996 e 2001, mulheres não podiam trabalhar, estudar ou sair de casa desacompanhadas.

Os extremistas tomaram a maior parte da capital Cabul e o Palácio Presidencial neste domingo 15, e o presidente Ashraf Ghani deixou o Afeganistão. E embora as lideranças talibãs tenham assegurado que as mulheres conseguirão manter seu direito de trabalhar e ir à escola sob seu novo comando, muitos duvidaram das declarações.

Cabul amanheceu deserta nesta segunda-feira, 16, e os moradores, especialmente mulheres, escolheram se refugiar em casa. Algumas poucas afegãs que saem às ruas tomam o cuidado de usar roupas que cobrem todo o corpo e os cabelos.

Cartazes e fachadas de lojas que exibiam fotos de mulheres foram cobertas pelos proprietários, que temem retaliação do Talibã. Pelas redes sociais, professoras universitárias e jornalistas relatam a agonia e o medo de perderem seus empregos e não voltarem a ver suas colegas de estudo.

“Alguns professores se despediram de suas alunas quando todos foram evacuados da Universidade de Cabul esta manhã… e talvez não tenhamos nossa formatura como milhares de outros alunos em todo o país”, escreveu Aisha Khurram, uma ex-embaixadora da Juventude da ONU, no Twitter.

Expulsas de seus empregos e apagadas da sociedade

Antes da tomada de Cabul, os talibãs já haviam assumido o controle de dezenas de cidades pelo país. Pelos locais onde passaram, centenas de mulheres foram obrigadas a deixar seus empregos e tiveram sua liberdade de movimento e expressão restringida.

Em Herat, uma cidade próxima à fronteira com o Irã, o Talibã está rejeitando as mulheres que vêm aos escritórios e até negando seu ingresso na universidade, onde constituem 60% do corpo discente. Segundo a agência de notícias Reuters, nove afegãs que trabalhavam para o Azizi Bank em Kandahar, a segunda maior cidade do país, foram expulsas de seu escritório no início de junho por soldados do grupo extremista. Elas foram escoltadas por homens armados até suas casas e proibidas de voltar ao emprego.

“Aprendi inglês sozinha e até aprendi a operar um computador, mas agora terei que procurar um lugar onde possa trabalhar com mais mulheres por perto”, lamentou Noor Khatera, de 43 anos, que trabalhava no departamento de contabilidade do banco. “É realmente estranho não poder trabalhar, mas agora será assim”.

Dois dias depois do episódio em Kandahar, uma cena semelhante aconteceu em uma agência do Banco Milli em Herat. As mulheres que trabalhavam no local apresentaram pedidos de demissão e enviaram parentes do sexo masculino para substituí-las em suas funções.

Na província de Badakhshan, no nordeste do país, o Talibã impôs duras restrições à circulação das mulheres e proibiu que elas saíssem de casa sem a companhia de um parente do sexo masculino. As afegãs também foram obrigadas a usar a burca.

Já no distrito de Rustaq, na província de Takhar, as lideranças extremistas usaram uma celebração religiosa em uma mesquita local para comunicar que meninas com mais de 15 anos e viúvas com menos de 40 deveriam se casar com os soldados talibãs. “Começou. As mulheres ficarão invisíveis novamente, serão silenciadas e não poderão mais respirar”, escreveu Nishank Motwani, diretor de pesquisa e especialista em política afegã da Consultoria ATR, baseada em Cabul.

Retrocesso

O contexto presente remete à situação em que o país se encontrava há mais de vinte anos, quando os soviéticos deixaram os afegãos. A saída do Exército Vermelho em 1989 provocou o início de uma violenta guerra civil entre facções, que fez quase 100 mil mortos em dois anos e culminou na ascensão do Talibã. Ainda hoje, os extremistas representam uma porção ultraconservadora da sociedade e uma ameaça aos direitos individuais.

Entre 1996 e 2001, as meninas não eram autorizadas a frequentar a escola, as mulheres eram proibidas de trabalhar e só podiam sair às ruas acompanhadas por um parente do sexo masculino e vestindo uma burca. As punições para quem infringisse as regras eram severas, incluindo apedrejamentos.

A paquistanesa Malala Yousafzai, ganhadora do prêmio Nobel da Paz, disse que está “profundamente preocupada com as mulheres afegãs, as minorias e os defensores dos Direitos Humanos”. Em 2012, a ativista foi baleada na cabeça por talibãs ao sair da escola por lutar pelo direito de meninas estudarem no Paquistão.

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