Rompimento de barragem em Mariana causou danos irreversíveis à foz do Rio Doce, diz estudo da Unicamp

Rompimento de barragem em Mariana causou danos irreversíveis à foz do Rio Doce, diz estudo da Unicamp

agosto 26, 2019 0 Por Joana Figueredo

Espécies sofreram com os rejeitos da mina e concentração de sedimentos na água afetou a fotossíntese do bioma aquático da área, diz doutoranda em geociências.

Em 2016, lama da Samarco já mudava a vida marinha na foz do Rio Doce — Foto: Rede Globo
Em 2016, lama da Samarco já mudava a vida marinha na foz do Rio Doce — Foto: Rede Globo

O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), causou alterações na foz do Rio Doce, em Linhares (ES), que podem ter efeitos permanentes. Isto é o que aponta o estudo de uma aluna de doutorado do Instituto de Geociências (IG), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Keyla Coimbra é autora de um artigo, feito em parceria com os orientadores Carlos Roberto de Souza Filho (Unicamp) e Enner Alcântara (Unesp), que atesta os danos causados pelo rompimento.

Os resultados encontrados na pesquisa apontam que a pluma de sedimentos – locais onde o rio deságua no mar, formando uma área caracterizada pelo sedimento que o rio lança ao oceano – foi bastante alterada.

“Muitas espécies sofreram com os rejeitos da mina, que foram carreados para foz do rio Doce. Esse material trouxe danos que podem ser irreversíveis, então acho que não se trata de um cenário de adaptações, e sim de muitas perdas”, explicou Coimbra.

Impactos na vida aquática

A pesquisadora contou que a grande quantidade de sedimentos suspensos na água reduz a entrada de luz solar na mesma, reduzindo a fotossíntese das plantas aquáticas da região. “Ela fornece alimento que suporta grande parte da cadeia alimentar no oceano, além do oxigênio dissolvido para a água. A radiação solar é a principal fonte de calor para a coluna d’água”.

A longo prazo, explicou Coimbra, a ausência de luz na água reduz o potencial de crescimento da fauna e da flora. “Não sabemos se ou quando o ecossistema costeiro da região afetado voltará as condições ecológicas de antes do desastre”.

Estudos comparativos

O estudo também trouxe uma comparação entre a quantidade de sedimentos depositados pelo rompimento e as chuvas que aconteceram em Minas Gerais e Espírito Santo em 2013, que trouxeram uma inundação acima do esperado.

Inundações em 2013 na região do Espírito Santo — Foto: Reprodução/TV Gazeta
Inundações em 2013 na região do Espírito Santo — Foto: Reprodução/TV Gazeta

“Constatamos que essa chuva intensa de 2013 também produziu o carreamento de uma grande quantidade de sedimentos para a foz do Rio Doce. Daí surgiu a motivação de comparar os efeitos dessa chuva intensa com o evento de Fundão”, relatou a doutoranda.

Diferente de 2013, quando a situação foi regularizada gradualmente e de forma natural poucos meses após o ocorrido, a situação causada pelo rompimento da barragem continua a trazer preocupações. “A grande quantidade de rejeito foi levada para o oceano, através do Rio Doce, e formou também uma pluma de sedimentos que alcançou grandes distâncias”, contou a pesquisadora.

“Esse rejeito foi depositado no fundo do oceano dentro de um mês, porém, depois de oito meses, as correntes oceânicas fizeram com que essas partículas suspendessem novamente, dando um aspecto avermelhado para água. Existem pesquisas afirmando que ele pode estar relacionado com metais tóxicos”, disse.

Arquipélago de Abrolhos

A próxima fase do estudo consiste em investigar se o rompimento da barragem pode ter afetado também o Arquipélago de Abrolhos, no litoral sul da Bahia. O local é considerado a primeira unidade de conservação marinha criada no país e possui a maior biodiversidade marinha do Brasil e da região do Atlântico Sul.