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quinta-feira, janeiro 28, 2021
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Escola de Imaginação para Adultos (por Tânia Fusco)

A criação é da Maria que, com seus seis anos, concluiu que os adultos não sabem mais brincar de imaginar.

– Brincar é imaginar, entende?

– Sim. Mas imaginar o que?

– Tudo. O que quiser. Do jeito que quiser. Coisas boas.

– OK. Mas essa sua escola terá aulas de que?

– De brincar.

– Como?

– Começa pelos desenhos. Adulto tem mania de dizer que não sabe desenhar direito… E desenho é do jeito que a gente quer, o que a gente quiser. Se colorir, fica sempre bonito…

Quem sou eu pra botar dúvida nisso. Até porque Maria já definiu: dos adultos que conhece, só as duas avós – sou uma delas –, uma tia e duas professoras não precisam da Escola de Imaginação para Adultos.  (To bem na fita!).

Brincadeiras com netos à parte – mais nos virtual do que no presencial -, neste ano, prevaleceu o inimaginável. Da pandemia aos acontecimentos políticos. Da intolerância social à tolerância máxima com inépcias do governo, de autoridades constituídas, a palavra de ordem foi desapreço – pela vida, pelo bom senso, pela compaixão.

2020 fica na História como o ano em que vimos a vida pela janela, gastamos tempo temendo a doença, a morte, os desacertos e os desmontes de conquistas básicas. Ano de violências.

O futuro nunca teve cara tão nebulosa, embaralhada – aquilo que virá depois de sei lá quando, nem como. Mais pra mau do que pra bom.

Sonhar, sonhamos. A vacina, uma ampola, uma picada, é sonho e desejo comum dos ricos, dos remediados, dos pobres e dos todos de todas as colorações, todas as crenças. Por favor, uma vacina que nos devolva o direito de ir e vir, com menos medo, menos riscos, menos mortos.

No ano do inimaginável, a vacina solta a imaginação. Como será o mundo imunizado contra o Covid? Como estaremos quando a peste não for mais peste?

Aprendemos. Não há vacina, nem limites contra absurdos. Assim definido no dicionário:

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Ab·sur·do

Adjetivo.

. Que é contrário à razão e ao bom senso; que não faz sentido; néscio.

. Que foge às regras ou normas estabelecidas.

Substantivo masculino.

. Aquilo que é contrário à razão e ao bom senso; algo absurdo; absurdez, absurdeza, absurdidade, disparate.

. Conforme a filosofia antiga, pensamento destituído de lógica, incoerente e inconsistente.

. Segundo a filosofia existencialista, falta de sentido para a existência do Universo e do ser humano.

No momento em questão, podemos apagar algumas das possibilidades de definição da palavra. Pela ordem:

  1. Que é simplório; ingênuo, tolo.
  2. Projeto fantasioso; sonho, utopia.

Até aqui, no balanço do ano, nada foi ingênuo ou tolo, nem fantasioso ou utópico. Adjetivo ou substantivo, o absurdo nunca foi tão concreto, real e pesado no nosso cotidiano.

São absurdos em cascata. Tantos e de tal absurdeza que enumerá-los provoca náuseas. Vieram em overdose.

No jeito brasileiro de ser, também overdosamos com memes as telas que têm ampliado nossas janelas. Rimos da desgraça pra não morrer de tristeza.

Maria ainda não sabe que, no deboche e na ironia, vamos brincando com coisas tão feias que não há colorido capaz de fazê-las bonitas. Não é imaginação é reação, defesa. Questão de sobrevivência.

Como é Natal, melhor pensar que, depois de tudo, teremos vaga na Escola de Imaginação para Adultos. Para reaprendermos a brincar de verdade, rir de verdade. Imaginar com a leveza e a confiança das crianças. Desenhar dias melhores, mundo melhor. Depois colorir pra ficar bem bonito.

Inscrições abertas.

Tânia Fusco é jornalista 

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