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domingo, novembro 29, 2020
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“A comédia acabou”

Segunda-feira, dia 2 de novembro. Na Wiener Staatsoper, a ópera estatal da capital austríaca, o público terminava de aproveitar a última apresentação na casa antes do estado de quase lockdown que teria que engolir a partir do dia seguinte. Duas óperas italianas haviam sido encenadas naquela noite: “Cavalleria Rusticana” (de Pietro Mascagni) e “Pagliacci” (de Ruggero Leoncavallo) formam uma tradicional dobradinha nas casas do gênero.

Na última e trágica cena de “Pagliacci”, o protagonista Canio brada “la commedia è finita!” (“a comédia acabou!”) após cometer um ato bárbaro. Antes que algum espectador eventualmente mais apressado resolvesse ir embora ainda em meio aos aplausos por parte da plateia e agradecimentos por parte dos artistas, Bogdan Roščić, o intendente do teatro, interrompeu o ritual para comunicar a todos que um incidente possivelmente terrorista havia acabado de acontecer em Viena – e que a polícia havia lhe pedido que abrigasse ali o público até que a saída de todos fosse considerada segura o suficiente. La commedia era finita, e às 23h – exatamente como na ópera, em que os palhaços da trupe anunciam ao público da cidadezinha onde irão se apresentar que o show começaria “a ventitré ore”.

Tivemos que permanecer dentro do teatro até quase meia-noite. As mesas distanciadas dos cafés internos foram todas tomadas, e algumas pessoas pediram bebidas enquanto esperavam. Nos belos corredores, pessoas conversavam enquanto caminhavam ou sentadas nos vários bancos e poltronas. Alguns, talvez pensando nas apresentações de ópera e ballet a que não poderiam mais assistir por um bom tempo, preferiram ficar olhando para o palco. Todos, no entanto, checavam as últimas notícias em seus smartphones, e muitos fizeram breves telefonemas. Até por conta da falta de informações mais claras naquele momento, o clima era de tranquilidade. Pairava no ar um sentimento mais ligado ao caráter inusitado e inacreditável da coisa do que ao perigo que a situação poderia representar.

Não muito longe da Wiener Staatsoper (no caso, a cerca de 15 minutos no ônibus, metrô ou bonde), um tiroteio contra pessoas que estavam em bares e restaurantes no Innere Stadt, o 1º distrito de Viena, havia disparado o alarme entre as autoridades três horas antes. A sinagoga Stadttemple, também conhecida como Templo Seitenstettengasse, fica ali perto e é a principal da cidade. Apesar de ter sido apontada rapidamente como o alvo da ação, o líder da comunidade judaica vienense Oskar Deutsch afirmou pelo Twitter ainda na noite de ontem que a sinagoga estava fechada na hora do ataque. O rabino Schlomo Hofmeister, que mora perto do prédio, chegou a ver um terrorista alvejando pessoas nas mesas externas dos vários bares da região – que estavam naturalmente cheios dado que o semi-lockdown iria começar em questão de horas e que a temperatura, na casa dos 15 graus, estava particularmente agradável para uma noite de alto outono. Um policial de 28 anos que fazia a guarda da sinagoga foi seriamente ferido por um terrorista armado com uma metralhadora, uma pistola e um machete. Segundo Gerhard Puerstl, chefe da polícia, este criminoso portava também um cinto explosivo falso e foi morto às 20h09.  Materiais em vídeo foram apreendidos na casa dele ainda na noite de ontem, e várias prisões foram efetuadas em 15 residências vizinhas. O policial, aparentemente, já não corre risco de morte.

De acordo com o Ministro do Interior Karl Nehammer, os atos foram praticados por extremistas muçulmanos simpatizantes do Estado Islâmico (IS) e ocorreram em seis diferentes pontos da região mais central da cidade. Mais tarde, Nehammer afirmou à agência de notícias APA que este atirador morto pela polícia tinha 20 anos de idade e nasceu na Macedônia do Norte. Dono de cidadania austríaca, ele havia sido libertado da prisão em dezembro passado, oito meses depois de ser condenado por tentar viajar à Síria para se juntar ao IS. Por ser um criminoso ainda jovem, ele teve direito a uma pena mais curta, de apenas 22 meses.

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Até a manhã desta terça-feira, dia 3 de novembro, quatro vítimas fatais haviam sido confirmadas, dois homens e duas mulheres. Dentre as mulheres, uma trabalhava como garçonete no momento em que foi atacada. Dos 17 feridos reportados até agora, sete estariam em estado grave. Autoridades afirmaram que 20 mil vídeos dos ataques já foram enviados por pessoas comuns à polícia para ajudar nas investigações.

Ainda na noite dos tiroteios, policiais de folga receberam ordens para ir às ruas. O exército foi convocado para assumir missões críticas, como cuidar da segurança de áreas emblemáticas de Viena. Na vizinha República Tcheca, autoridades conduziram ações na fronteira com a Áustria de modo a evitar uma possível fuga dos terroristas. Entre quatro e oito – as informações ainda estão desencontradas – terroristas foragidos estavam sendo procurados. Com exceção de um, todos haviam sido capturados até as duas horas da manhã de terça-feira.

Assim que a saída do prédio da Wiener Staatsoper foi autorizada pela polícia, carros de polícia e oficiais fortemente armados garantiram uma saída tranquila a todos que ali estávamos. Dentro da estação Karlsplatz do metrô (a mais próxima não só da ópera, mas de outras instituições culturais de peso e de muitos restaurantes e cafés badalados), agentes de segurança do transporte público e policiais de forças especiais proporcionaram um embarque bastante seguro. O transporte havia sido interrompido em toda a cidade durante os ataques.  Para hoje, terça-feira, a orientação das autoridades é que todos os que puderem ficar em casa e evitar o transporte público e a região central de Viena o façam.

Nem os austríacos nem os vienenses em particular estão minimamente acostumados com este tipo de pesadelo. Não há por aqui um histórico de atentados terroristas de maior porte. O evento mais similar aos atos de ontem foi um ataque à mesma sinagoga Stadttemple em agosto de 1981, quando dois jovens de origem palestina utilizaram metralhadoras e granadas para matar duas pessoas e ferir 30 durante um serviço de Bar Mitzvá. Um dos terroristas, aliás, era um iraquiano-palestino que havia matado a tiros em maio do mesmo ano o líder do Partido Socialista e presidente da Liga da Amizade Austro-Israelense Heinz Nittel.

Em uma cidade que respira cultura, história, gastronomia, boemia e socialização; lidar com a controversa volta de algumas restrições anti-coronavírus já parecia péssimo o suficiente. Resta torcer para que os abomináveis crimes praticados na noite desta já fatídica segunda-feira tenham sido um ponto bastante fora da curva –  e não voltem a se repetir.

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