Mais de um milhão de pessoas saíram às ruas de Santiago pedir por melhorias sociais nesta sexta-feira (25). Pessoas de várias regiões do país de 18 milhões de habitantes se juntaram à concentração na Plaza Italia, no centro da capital do Chile. As marchas fazem parte dos protestos contra o governo que já duram mais de uma semana e deixaram pelo menos 19 mortes.

O estopim da crise foi o aumento do preço da passagem de metrô na capital. Estudantes começaram a protestar na segunda-feira, 14, pulando a catraca nas estações, e as manifestações foram escalando ao longo da semana. Na sexta-feira passada, os atos se tornaram violentos, com manifestantes ateando fogo e danificando estações de metrô. Um dia depois, o presidente de centro-direita Sebastián Piñera decidiu revogar o aumento da passagem do metrô, mas os protestos não pararam, e se intensificaram. Os manifestantes passaram a demandar melhorias nos salários, aposentadorias e nos setores de pensões e ensino público, entre outras reivindicações.

O governo decretou estado de emergência, ordenou toque de recolher em Santiago e região metropolitana e convocou as forças armadas para controlar a população. Houve confrontos entre manifestantes e as forças militares e policiais; na última semana foram confirmadas 19 mortes, 2.840 pessoas detidas e 295 feridas por armas de fogo. A analista Marta Lagos, diretora do Latinobarómetro, afirmou à Associated Press que a magnitude das manifestações é inédita, nunca vista durante a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990) nem desde o restabelecimento da democracia.

A revolta social acontece na nação que é conhecida como a mais estável e próspera da América do Sul. Desde a redemocratização do país, após a ditadura de Augusto Pinochet, os seus vários governos – de direita ou de esquerda – mantiveram políticas liberais. E essas políticas foram bem sucedidas: o país teve o maior crescimento em relação aos vizinhos desde a redemocratização, a taxa de pobreza caiu de mais de 40% em 1990 para menos de 10% em 2015.

Enquanto o estopim da crise é fácil de identificar, apontar para a receita completa que levou a uma revolta dessa magnitude no país que é caso de sucesso entre os latino-americanos não é tão simples.

Muitos especialistas dizem que a desigualdade do país é uma das principais frustrações dos chilenos. “Acredito que a grande motivação dessas manifestações é que uma parte da população sente que não ganhou os mesmos benefícios, ou não conseguiu ver o seu padrão de vida crescendo com a mesma velocidade do progresso do país”, disse Ana Elisa Gonçalves Pereira, doutora em Economia e professora na Universidad de los Andes, em Santiago.

Para a economista, o diagnóstico de que o sistema liberal estabelecido no Chile desde a redemocratização fracassou não é “muito justo”. “Não há nenhuma evidência para dizer que esse sistema fracassou”, afirmou.

Embora a situação econômica do Chile seja melhor do que a de seus vizinhos e melhor do que foi no passado, a sua população muitas vezes não faz essa comparação. “As pessoas esperariam que, pelo Chile ser considerado próspero na região, elas incorporariam uma melhora no padrão de vida em velocidade mais expressiva do que tem acontecido”, explicou Ana Elisa.

Ao mesmo tempo, especialistas veem o descontentamento com as políticas liberais como fomentador dos protestos, que começaram com os estudantes mas rapidamente tiveram adesão de outros grupos sociais com outras pautas e reclamações de reformas feitas pelo atual governo. “Então temos, sim, uma relação entre os protestos e as políticas liberais que foram adotadas recentemente”, disse Rodrigo Gallo, professor de Relações Internacionais no Instituto Mauá de Tecnologia.

“Embora tenhamos indicadores econômicos que mostram que o Chile tem crescido, uma parte da população, quem está protestando, diz que esse crescimento se dá às custas da redução de benefícios sociais”, afirma Gallo.

A desigualdade foi apontada também por Carlos Eduardo Vidigal, doutor em Relações Internacionais e professor do curso de História da Universidade de Brasília (UnB) . “O modelo chileno alcançou um equilíbrio econômico que favorece principalmente os setores médios da sociedade. A classe média chilena em geral consegue pagar universidade, plano de saúde, e viver relativamente bem”, afirmou . “Mas não é o caso da maioria da população”, concluiu.

Além da redução da pobreza, a redução da desigualdade também é uma meta importante quando se fala em melhoria de padrão de vida; já que a desigualdade pode gerar um conflito na população, como parece ser o caso do Chile.

De acordo com o Banco Mundial, os valores do coeficiente de Gini, usado para medir a desigualdade de um país, colocam o Chile entre os dez países mais desiguais do mundo, com outros seis da América Latina e Caribe. Mesmo assim, a média de desigualdade do Chile tem se mantido abaixo da média da região.

Outro ingrediente para o desencadeamento do cenário atual no Chile foi a resposta do governo às manifestações, dizem os especialistas. O alto índice de feridos e mortos nos confrontos e as forças armadas fez com que a alta-comissária para os Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) e ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, enviasse uma equipe para investigar as denúncias. O convite foi feito pelo próprio Piñera.

“Quando há denúncias de abuso de autoridade, há reforço nos protestos, porque isso mostra que o Estado está agredindo o cidadão”, disse Gallo.

“Com a explosão emocional existente (estudantes, classe trabalhadora e classe média aderindo e repressão policial severa) a tendência é de recrudescimento. Assim seria preciso um pacto de não agressão de todos os lados e uma sentada à mesa de negociações”, disse Ricardo Farah, professor de Conflitos e Negociações da Sustentare Escola de Negócios.

Mais cedo, na vizinha cidade portuária de Valparaíso o Congresso chileno foi esvaziado pela primeira vez desde sua reabertura, em 1990, após centenas de manifestantes tentarem cruzar o perímetro de segurança, em meio a enfrentamentos com a polícia, que os reprimiu com violência.

Houve também nesta sexta-feira uma greve de caminhoneiros, que circularam lentamente em uma rota que une o norte ao sul do país e passa por uma divisa de Santiago. Os caminhoneiros exigiam mudanças na cobrança de pedágio, pedindo que eles não sejam mais cobrados nas rodovias privadas.

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