RIO Megalomaníaco e egocêntrico,

Kanye West

não costuma fazer nada pela metade. A capacidade quase ímpar do rapper americano de olhar exclusivamente para o umbigo costuma andar lado a lado com o furor criativo, o perfeccionismo, a busca pela reinvenção e, mais ainda, com a obsessão de estar à frente dos seus pares. Por isso, ame ou odeie, Kanye consegue sempre ser assunto quando está para lançar um disco.

Não seria diferente com “Jesus is king”, o nono álbum de estúdio do rapper e produtor de 42 anos, que, após um já tradicional atraso, chega às plataformas digitais nesta sexta-feira e também aos cinemas americanos, no mesmo dia, com um documentário de 38 minutos embalado pelas onze faixas do disco.

Culto? Show?’Sunday Service’: como foi a ‘missa de Páscoa’ de Kanye West no Coachella

Numa empreitada que, entre os brasileiros, vem sendo comparada à

fase “Racional” de Tim Maia

(quando o cantor fez parte da seita Universo em Desencanto), Kanye abraçou o cristianismo, converteu-se e decidiu celebrar tal fase com um álbum essencialmente gospel, em sonoridade e temática. O que fica claro já no nome das faixas, como “Jesus is Lord”, “Follow God”, “God is” e “Use the gospel”.

Essa guinada religiosa brusca foi sendo antecipada ao longo do ano, com uma série de performances do chamado “Sunday Service”, uma espécie de culto dominical essencialmente musical promovido por Kanye em diferentes cidades. Nele, apenas convidados tinham permissão de participar

com exceção àquele promovido no festival Coachella, no domingo de Páscoa

e por lá passaram desde rappers como Chance the Rapper e A$AP Rocky até estrelas como Brad Pitt.

“Agora que estou a serviço de Cristo, meu trabalho é espalhar o gospel, para que as pessoas saibam o que Jesus tem feito por mim”, explicou o músico em longa entrevista, nesta quinta-feira, ao produtor e radialista Zane Lowe. “Eu já espalhei muita coisa. Agora, quero que vocês saibam o que Jesus fez, e que eu não sou mais um escravo, agora sou um filho, filho de Deus. Estou livre”.

Celibato e veto a palavrões

A relação entre o hip-hop e o gospel não é nova e pode ser vista tanto em trabalhos recentes, como o do evangélico

Chance the Rapper (vencedor do Grammy por seu disco “Coloring book”, de 2016)

, até em clássicos de pioneiros como M.C. Hammer, Diddy e DMX. O próprio Kanye West usou referências da música gospel em diversos momentos da carreira, mais notoriamente na faixa “Jesus walks”, que completa 15 anos em dezembro de presença certa nos setlists do “Sunday Service”, repaginada para o formato de coral e banda.

Mas Kanye mergulhou como poucos na fé à sua maneira, claro. Os palavrões, frequentes em suas canções e no rap como um todo, estão banidos de “Jesus is king”. De forma mais extrema, o rapper chegou a exigir celibato daqueles que trabalhavam com ele no disco.

“Havia momentos em que eu pedia às pessoas para não fazerem sexo antes do casamento enquanto estavam trabalhando no álbum”, admitiu na entrevista a Lowe. “Deixem espaço para a energia do Espírito Santo”.

Segundo Adam Tyson, pastor do rapper, Kanye acredita fielmente que foi “radicalmente salvo”. Em entrevista ao podcast “Pure Flix”, o líder religioso admitiu ainda que ajudou o músico no novo processo criativo: “Eu não escrevi as canções. Esse é o trabalho dele. Ele é o criador completo, um cara criativo, o músico. Eu apenas fiz comentários sobre como articular o evangelho de forma mais clara e como incluir o componente da adoração, que foi ideia dele”.

Conversão após colapsos

A conversão religiosa surgiu depois de um período conturbado na vida pessoal de Kanye West. Em novembro de 2016, sete meses após lançar o álbum “The life of Pablo”, o músico cancelou abruptamente a turnê de divulgação do trabalho e deu entrada num hospital de Los Angeles, cidade onde mora, por conta de alucinações e paranoia. O problema foi tão grave que o seguro bancou o prejuízo causado pelos 21 shows restantes da turnê.

Dois anos depois, numa entrevista, Kanye revelou que se tornara viciado em opióides que lhe foram prescritos depois de fazer uma lipoaspiração, o que poderia ter potencializado o episódio de colapso nervoso. Em 2019, ao participar do programa de entrevistas de David Letterman na Netflix, o rapper anunciou ter transtorno bipolar.

Como o próprio canta em “Jesus walks”, a conversão abrupta foi um apelo: “Deus me mostre o caminho, porque o diabo está tentando me derrubar”.

E, aparentemente, “Jesus is king” não será um episódio isolado na trajetória do agora rapper evangélico Kanye West. Ainda nesta quinta-feira, ele anunciou para o Natal deste ano o lançamento de “Jesus is born”, que aparenta ser um álbum ao vivo criado a partir dos cultos musicais do “Sunday service”.

O ego segue

A religião pode até ter ajudado Kanye a lidar com os demônios internos, mas não tirou dele uma de suas maiores características: a autoestima exacerbada. Ainda na entrevista a Zane Lowe, quando perguntado sobre o polêmico apoio à candidatura de Donald Trump, Kanye disparou:

“Eu sou inquestionavelmente, sem dúvida, o maior artista de todos os tempos. Nem sequer é uma pergunta neste momento. É apenas um fato. Para o maior artista da existência humana, colocar um chapéu vermelho

(referência ao boné com os dizeres ‘Make America great again’, de Trump)

era a piada de Deus para todos os liberais. Algo como ‘nãããão, o Kanye não!”.

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