O clamor tem razão de existir. Todas as pesquisas de opinião feitas até aqui indicam uma tendência precoce de queda na popularidade de Jair Bolsonaro. De acordo com os números mais recentes do Datafolha, o desgosto com o governo cresceu de 33% no início de julho para 38% na última semana de agosto, um recorde até aqui. Essa rejeição aumentou principalmente entre os mais ricos. A fatia de apoiadores do presidente que ganhava mais de 10 salários mínimos por mês despencou 14 pontos percentuais entre junho e agosto. Também foi expressiva entre os nordestinos. De 0 a 10, a nota média atribuída ao desempenho de Bolsonaro à frente da Presidência até agora é 5,1.

O núcleo de apoio a Bolsonaro segue firme, oscilando em cerca de 30% do eleitorado. Entre aqueles que votaram no ex-capitão no segundo turno, 6 em cada 10 consideram seu governo ótimo ou bom até aqui. Além disso, perto de 12% dos brasileiros podem ser identificados como bolsonaristas de “raiz”. Do tipo que acredita, endossa e divulga tudo o que diz ou faz o presidente. O apoio a Bolsonaro caiu entre os mais ricos, mas se mantém vivo entre os brasileiros cuja renda família oscila entre 2 e 5 salários mínimos por mês. É difícil entender por que uma parcela tão expressiva (e vulnerável) da população siga a apoiar o presidente, apesar das crises sucessivas, do desmonte dos serviços públicos e das previsões desalentadoras para a economia.

Segundo a socióloga Isabela Kalil, professora e coordenadora do Núcleo de Etnografia Urbana da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, esta é uma questão que envolve muitos fatores. Desde 2016, Kalil chefia uma equipe de dezenas de pesquisadores que vai a campo de tempos em tempos tentar saber quem são e o que pensam os apoiadores do ex-militar. Primeiro nas manifestações pró-impeachment guiadas pelo pato amarelo da Fiesp. Mais recentemente, nos protestos de apoio à derrubada dos ministros do Supremo Tribunal Federal e aos interesses da Lava Jato, liderados pelas mesmas figuras dos atos anteriores. No fim do ano passado, o grupo mapeou 16 perfis diferentes de eleitores e apoiadores do presidente. O perfil descrito acima foi classificado como o “periférico de direita”: moradores de periferias urbanas, em geral precarizados, que desde a derrubada de Dilma desenvolveram um variado léxico antiesquerdista.

As milícias virtuais ficam mais violentas conforme despenca a popularidade de Bolsonaro

A pesquisa saiu do forno em outubro, pouco depois de realizado o primeiro turno das eleições presidenciais. Além dos “periféricos de direita”, destacam-se o chamado “cidadão de bem” lavajatista – atraído por uma garantia de ordem – e os “isentos” e “meritocratas”, movidos por um forte sentimento de “mudança” que só se materializaria com a saída do PT do governo. Há ainda os “machões e bolsogatas” acuados pelos avanços na questão de gênero. E os apoiadores pragmáticos, estritamente ligados ao programa ultraliberal de Paulo Guedes. À exceção deste último, afirma a pesquisadora, a mobilização de todos esses perfis tinha em comum emoções como o medo, o ódio ou o ressentimento. Dias depois, Bolsonaro seria eleito com 57,7 milhões de votos.

Outros dois perfis despontaram desde a tomada do poder: o “arrependido” e os militantes virtuais. Os desencantados misturam características de todos os outros perfis anteriores. Os cientistas trabalham agora para identificar padrões nessa insatisfação. Até agora, sabe-se que os insatisfeitos não necessariamente se tornam apoiadores da esquerda. “Uma declaração importante que coletamos em campo foi: ‘Apoiamos uma ideia, e não uma pessoa’. Havia ali uma disposição de mostrar apoio, mas também um recado crítico. Estava dado o aviso de que Bolsonaro não tem o apoio individual desses grupos.” Kalil duvida, porém, que esse eventual rompimento se dê de forma rápida e homogênea. “Nem todos os eleitores insatisfeitos se arrependeram. Alguns dizem que não votarão nele novamente. Outros, mantêm a confiança e o apoio, mas se mostram insatisfeitos. São nuances diferentes.”

➤ Leia também: Governo Bolsonaro libera mais 63 agrotóxicos, sendo 7 inéditos

O segundo grupo é composto por tipos variados e se prolifera nas caixas de comentários em portais de notícias e nas redes sociais. São os responsáveis por ataques coordenados a jornalistas, políticos de oposição e celebridades que se insurjam contra o governo. O modus operandi varia entre a propagação de fake news, ameaças de morte e divulgação de dados privados. À medida que a popularidade de Bolsonaro despencou, explica ela, esses grupos passaram a atuar de maneira mais incisiva e violenta nas redes sociais. “Na primeira etapa da pesquisa havíamos pensado neles muito genericamente como haters, gamers. E agora temos pensado o quanto esses perfis mesclam o humanos e não humanos.”

Como um presidente tão inepto conseguiu fazer gente razoável defender à mesa o fogaréu na Amazônia? Uma das razões resiste nas várias interpretações que inundam a internet tão logo uma notícia importante chega à mídia. Nos casos de repercussão internacional, dobra-se a aposta. Um bom indicativo é o debate sobre os incêndios na Amazônia. As primeiras discussões começaram no dia 11 de agosto, quando o Inpe registrou os focos de incêndio no Pará provocados pelo infame “dia do fogo”.

Na semana seguinte, quando o céu de São Paulo amanheceu coberto por uma fuligem preta. Àquela imagem, seguiram-se várias outras de florestas a arder em chamas. Algumas recentes. Outras, fotos antigas falsamente atribuídas aos incêndios atuais. Enquanto o campo progressista denunciou os crimes ambientais e cobrou ações do governo federal, a claque bolsonarista reagiu ancorada em um nacionalismo de araque, acusando o presidente francês Emmanuel Macron e os organismos internacionais de atentar contra a soberania. É nessa reação que os bots entram em cena. Alguns pesquisadores liderados por Kalil têm mapeado discussões a partir de mensagens no Twitter. “E temos conseguido identificar um número grande de robôs”, conta.

➤ Leia também: Atacado pelo governo Bolsonaro, Paulo Freire é celebrado na Suíça

São postagens que soam radicais ou costumam ser precedidas por centenas de mensagens reforçando aquela ideia, boa parte oriunda de comandos automatizados. Para os usuários de carne e osso, esse movimento cria uma sensação de consenso e comunidade que termina por atenuar o radicalismo daquele discurso. É raro que o internauta médio consiga distinguir um interlocutor real de um virtual. Você pode até achar que o emissor passou dos limites, mas se há 400 outros apoiando o discurso, nasce uma sensação de unidade. Mesmo que as “pessoas” não sejam pessoas.

Há um terreno mais pantanoso nos grupos de mensagens privadas, como o WhatsApp. Um levantamento do portal UOL indica que a rede de fake news pró-Bolsonaro que atuou nas eleições ainda está ativa, com fortes indícios de ação automática. O brasileiro David Nemer, professor do Departamento de Estudos de Mídia na Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, estuda o comportamento de grupos de apoio a Bolsonaro no WhatsApp e em fóruns de discussão anônimos, entre eles o 4chan e o 8chan. As comunidades de apoio a Bolsonaro, constatou, arrefeceram e se dividiram desde as eleições. “Eram mil mensagens por dia”, afirma, e “a maioria dos usuários entendeu que o objetivo ali acabou, porque ele se realizou. Até porque esses grupos eram muito movimentados, eram quase mil mensagens por dia. Quem ficou é porque tinha um interesse mais do que pessoal aí.”

O pesquisador dedica-se agora a puxar o fio desse novelo de interesses. Um dos peixes grandes apontados até agora é o empresário Paulo Marinho, que transformou sua casa em um bunker que retransmitia informações falsas. Ao menos dois dos “soldados” arregimentados por ele (de forma voluntária, garante) ganharam cargos na Presidência: Rebecca Félix e Taís Feijó, ambas assessoras com salários acima dos 10 mil reais. “O que elas faziam na campanha era espalhar fake news. Devem estar fazendo o mesmo no governo. Nota-se uma concordância, uma sincronia entre o que Bolsonaro diz e essas informações”, provoca Nemer.

O bolsonarismo e o lavajatismo não se entendem mais como antes

Marinho rompeu com o governo. Bolsonaristas apontam como um dos encarregados mais destacados dessa missão o blogueiro Allan dos Santos, dono de um site chamado Terça Livre. Ex-seminarista, natural do Rio Grande do Sul, o blogueiro mudou-se há pouco mais de dois meses para a capital federal, em uma casa no Lago Sul e circula com desenvoltura pelo Planalto. O cantor Lobão, outro bolsonarista arrependido, afirma que o aluguel da casa ocupada por Santos é bancado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro. O ex-seminarista nega, mas quase veio às lágrimas depois de ter o seu endereço exposto pelo cantor. “Esse cara não tinha dinheiro para comprar um fósforo”, aponta um outro blogueiro pró-Bolsonaro.

Também continua atuante um grupo pequeno, mas perigoso, que Nemer classifica como supremacistas sociais. “Eles não estão preocupados com a política do Bolsonaro, mas se capitalizam em cima do discurso de extrema-direita dele. Veem nele a figura da extrema-direita”, explica. Esse grupo é o principal responsável por espalhar propaganda pró-Bolsonaro em outros fóruns anônimos, como o 4chan. Nesses grupos misturam-se conteúdo pedófilo, discursos extremistas, xenofobia e homofobia.

O escritor americano Dale Beran era um desses usuários do 4chan. No livro It Came From Something Awful, ele explica como este e outros fóruns anônimos pavimentaram o caminho de Donald Trump à Casa Branca. Desde a consolidaçao da internet comercial, no início dos anos 2000, estes sites se transformaram em confrarias de adolescentes desajustados, unidos pela falta de perspectivas, e certo niilismo. A impotência no mundo real transforma-se em potência das maiorias virtuais anônimas.

➤ Leia também: As mulheres do governo Bolsonaro prestam um desserviço ao feminismo

Depois da recessão de 2008, a política dominou o fórum: o anonimato virtual deu origem a uma nova forma de participação política, basta lembrar dos mascarados nos protestos do Ocuppy Wall Street, a Primavera Árabe e em Hong Kong. O argumento central do livro é, conforme a crise recrudesceu e cresceram as redes sociais públicas e mais sofisticadas, como o próprio Facebook, esses jovens desajustados guinaram à direita e se radicalizaram. Viam a si mesmo como preteridos em relação às mulheres, gays e gente de cor. E encontraram em Trump, subestimado e ridicularizado pela mídia, um representante desses anseios. “É um grupo tão frustrado com a realidade, por não poder mudá-la, que prefere destruí-la”, resumiu o autor em uma palestra.

Se o bate-cabeça do primeiro semestre minou a influência dos milicos e dos malucos no Planalto Central, a briga agora envolve o setor mais alinhado ao ideário da Lava Jato. A mistura entre lavajatismo e bolsonarismo, que parecia indistinguível, começa a decantar, e as fissuras desse núcleo aos poucos se transforma em fratura exposta. A indicação de Augusto Aras à Procuradoria-Geral da República, as trocas de farpas entre Moro e Bolsonaro e a ensaiada queda de Maurício Valeixo, camarada do ministro que assumiu a direção da Polícia Federal. A CPI da Lava Toga no Senado é um elemento dessa disputa. A ideia de convidar os ministros do Supremo Tribunal Federal a prestar contas é amplamente defendida por alguns setores mais alinhados ao lavajatismo na tentativa de, em última instância, derrubar Dias Toffoli e Gilmar Mendes.

A realpolitik bolsonarista é contra, inclusive, Flávio Bolsonaro. Preveem que o inquérito vai avinagrar a relação do Planalto com a Corte, embarreirar a votação da reforma da Previdência no Senado e abrir caminho para um eventual impeachment do próprio Bolsonaro. Desde a declaração que ilustra o parágrafo de abertura desta reportagem, vários nomes do star system bolsonarista anunciaram publicamente seu desagrado com a nova onda olavista. Janaína Paschoal decretou o fim do filósofo. Lobão e várias figuras do YouTube engrossaram esse cordão.

Sob anonimato, insiders do partido até admitem que a CPI seja enterrada, desde que não com os votos do PSL. Acreditam que abandonar o discurso anticorrupção que seduziu milhões de incautos desmontaria a identidade do partido. Não à toa, uma leva de deputados ameaça trocar o PSL pelo Podemos, caso o discurso dos caciques não mude. “Esse pessoal se alinhou por um conceito, não um nome”, diz um burocrata do partido sob anonimato.

A grande pedra de sustentação do governo está fincada nas igrejas evangélicas. Entre os fiéis de denominações neopentecostais como a Assembleia de Deus e a Universal de Edir Macedo, a chancela a Bolsonaro atinge 46%. Essa influência se reflete no Palácio do Planalto. Nos últimos meses, com o apagamento da influência dos núcleos militar e olavista, há um aumento gradual da influência de líderes e parlamentares evangélicos nos rumos do governo.

Um levantamento recente do jornal O Estado de S. Paulo mostra que os encontros com representantes dos evangélicos cresceu quase 50% de março pra cá. Católico, o presidente foi levado para o universo protestante pela primeira-dama. Michelle passou por várias agremiações e o casório dos dois foi celebrado por Silas Malafaia. Pesou ainda a influência dos filhos, criados pela mãe na Igreja Batista. Bolsonaro soube manejar os códigos internos da religião sem jamais ter se convertido. Ronaldo Almeida, antropólogo pela Unicamp e pesquisador do Cebrap, explica que essa proximidade azeitou as relações com líderes evangélicos, igualmente cortejados por governos anteriores. “Ele jamais parou de sinalizar. Agora, se atendeu os interesses corporativos, tem que ver. O padrão dos governos anteriores, principalmente com a Igreja Universal, era dar ministérios…”

Entre o eleitorado, a facada, acredita Almeida, teria sido essencial para consolidar esse apoio. “Ali nasce a imagem do cara que supera. Há na internet vários clipes na época com trilha sonora gospel, Bolsonaro se levantando da cama do hospital, comparações com personagens bíblicos…” E os erros de Bolsonaro e as suspeitas sobre o filho mais velho teriam poder de acabar com esse apoio? “Há um processo de justificação, uma série de senões. ‘Não tem nada provado. Mas, se houver, o pai não pode pagar pelo filho. O PSOL também faz, os outros fazem…’ Sempre achei o caso do Flávio definitivo. Tem ali um fator que, caso se aprofunde, quebra o discurso do evangélico pró-Bolsonaro. É a balança”, ressalta.

A rede de robôs que espalhou fake news durante as eleições continua em plena operação

Bolsonaro parece apostar em manter um núcleo mínimo, mas estridente, de apoiadores. Talvez seja o que lhe resta. Apenas Fernando Collor teve uma aprovação tão baixa em tão pouco tempo de mandato. Em setembro de 1990, dois anos antes do processo que culminaria no impeachment, apenas 34% do eleitorado aprovavam o governo do alagoano. Outros 20% o consideravam ruim ou péssimo. A rejeição a Bolsonaro é, no entanto, quase duas vezes maior que aquela experimentada por Collor e praticamente quadruplica em relação a Lula, Dilma e FHC no início de seus primeiros mandatos. A política ensina: é melhor contar com uma maioria silenciosa e sólida do que com uma minoria instável e barulhenta.

Ilustrações: Venes Caitano

… Mas não se vá ainda. Ajude-nos a manter de pé o trabalho de CartaCapital.

Nunca antes o jornalismo se fez tão necessário e nunca dependeu tanto da contribuição de cada um dos leitores. Seja Sócio CartaCapital, assine, contribua com um veículo dedicado a produzir diariamente uma informação de qualidade, profunda e analítica. A democracia agradece.

Repórter de CartaCapital

‘ + c[Math.floor(c.length/2)].textContent + ‘

‘ + div[Math.floor(div.length/2)].textContent + ‘

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui